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Quarta-feira, Novembro 08, 2006
Vamos casar no Canadá?
Certa vez em uma destas viagens da vida, em uma situação de diversão e não de trabalho, conheci um jovem casal canadense. Pois bem, este jovem e recém casado casal estava em lua-de-mel no mesmo hotel que eu, desfrutando o mar azul e quente do Caribe.
Sentado em uma poltrona da sala de jogos conversei com a menina, ou melhor, com a senhora, enquanto seu marido jogava sinuca e bebia uma Marguerita ao nosso lado.
Ela ficou maravilhada em saber que eu era brasileiro, já que segundo ela o seu sonho, ou melhor, o sonho do casal era conhecer o Brasil, as praias brasileiras, o carnaval brasileiro, o futebol brasileiro, as favelas brasileiras... isso mesmo!
Mas, a grande dúvida desta jovem recém senhora era de que o Brasil fosse um país muito caro, um país muito custoso para os turistas.
Eu expliquei que isso não deveria ser problema, acredito eu, já que penso que no Canadá os canadenses ganham razoavelmente bem, ao menos bem o suficiente para passarem lua-de-mel no Caribe bebendo Marguerita e jogando sinuca.
Então a recém ex-senhorita e agora senhora explicou-me como funciona o casamento no Canadá, muito simples por sinal, porém, muito interessante.
Tudo funciona mais ou menos como no Brasil, prepara-se a festa, convidam-se os amigos, definem-se os padrinhos... mas não existem presentes, ou melhor, os convidados não recebem aquela enorme lista de noivas e saem fazendo "vaquinha" para comprar aquele presente mais-ou-menos-caro-mais-ou-menos-barato na loja. Lá no Canadá, cada casal de convidados ao chegar à festa presenteia os noivos com uma quantia exata de mil dólares.
Assim o jovem casal casado que tinha recebido algo em torno de 400 convidados deveria ter uma quantia em torno de 200 mil dólares, uma quantia bastante animadora.
Sejamos realistas, desta quantia desconta-se os gastos com a festa, os gastos com o bolo, os gastos com a passagem para a lua-de-mel, impostos, imprevistos, toda e qualquer coisa custosa que se possa imaginar em um casamento, e claro, paga-se a Marguerita e o aluguel da mesa de sinuca... ainda assim sobra mais do que o suficiente para visitar o Brasil.
Meu único conselho para o jovem casal: é melhor guardar muito bem o que sobrou antes de passarem pelas favelas do Brasil.
E então, alguém ai está a fim de casar no Canadá?
By Alex OldBoy |
3:08 AM
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Orkutcídio!
Interessante como o fenômeno Orkut criou no brasileiro uma nova rotina de vida, quase que uma nova religião.
Eu chego no trabalho por volta de 9:00hs da manhã e vejo quatro estagiários - que apenas deveriam trabalhar na parte da tarde - sentadinhos em suas cadeiras com os olhos fixos em seus monitores.
- Bom dia, o que está fazendo? - pergunto a um deles.
- Olhando o meu Orkut. - responde o concentrado rapaz.
- Mas por que está aqui a esta hora, por que não faz isso em casa?
- Não tenho computador em casa.
- Hum, entendo. E por que não está fazendo qualquer outra coisa?
- E deixar de ler meus scraps? E se alguém escreve alguma coisa contra mim? Eu tenho que estar atento para apagar rápido.
Desisto e vou para minha mesa trabalhar.
Em 10 minutos chega o meu companheiro de cela, o que senta na mesa ao lado. Ele me dá bom dia, afinal senta ao meu lado. Antes mesmo de bater o ponto eletrônico ele abre o seu Orkut. E nos próximos 20 minutos ele estará dando bom dia a pelo menos um terço dos 178 friends que ele possui.
E o dia segue, olho os monitores dos colegas e sempre vejo a dupla dinâmica de telas, Microsoft Messenger na frente seguido pelo browser com Orkut atrás.
Meu escritório hoje parece uma fábrica de livros, nossos funcionários são os mais eficientes escritores que já tive notícias. São dezenas de dedos teclando ao mesmo tempo, escrevendo scraps, mensagens particulares, ou simplesmente opinando nas mais diversas comunidades disponíveis. Vale notar que a grande maioria delas é de uma inutilidade sem tamanho.
Muitos funcionários ficam depois do expediente na sua nova vida, a Vida Segundo Orkut.
Então dia desses meu amigo brigou com a namorada, terminou tudo, ficou desolado. Escreveram um scrap. Contarem que ele fora visto com outra. A namorada leu antes dele e terminou tudo.
Então entre uma lágrima e outra ele decide tomar uma atitude extrema, algo que deixou seus colegas de boca aberta. Ele cometeu o Orkutcídio, ou ato de descadastrar-se do Orkut. Uma lástima.
Não demorou nem 10 minutos e seu celuar começou a tocar. Amigos perguntando o que havia acontecido, querendo saber se ele ainda tinha vida, se o acidente fora muito grave, se tinha mudado de país, de planeta. Seu messenger piscando como uma sirene de ambulância. Enfim, todos queriam saber qual desgraça havia se abatido sobre aquele rapaz, algo tão trágico a ponto dele ter saído do Orkut. Como alguém pôde fazer isso?
Chamei meu amigo para sair e beber um chopp. Ele estranhou mas depois aceitou. E assim fomos, vimos pessoas de verdade, conversamos olho no olho, rimos, e praticamos aquela esquecida arte chamada viver.
Meu amigo descobriu então que na Vida Segundo Orkut existe vida depois da morte, ou, vida depois do Orkutcídio.
E eu infelizmente vim a descobrir mais tarde que na Vida Segundo Orkut existe ressurreição, pois uma semana após estes fatos, e pressionado pelos inúmeros convites dos 178 friends, meu amigo resolveu reentrar no Orkut.
E hoje ele manda bom dia aos seus amigos antes mesmo de bater o seu próprio ponto eletrônico.
By Alex OldBoy |
2:51 AM
Comentários:
Meu primeiro agradecimento vai para...
Estava pensando na vida dia desses. Lembrei então de um momento que ficou marcado, e o pior, um momento que ficou inacabado.
Eu devia ter uns 16 anos na época, uma época em que escrevíamos com papel e lápis, no máximo com máquinas de escrever.
Eu não tinha, era pobre.
Estava entrando em contato com os livros e seus autores. E entre tantos famosos e clássicos como Machado de Assis, Jorge Amado e Guimarães Rosa, conheci um livro que me prendeu e me fez pela primeira vez não achar chato ler, pela primeira vez me senti o próprio personagem.
Seu nome era Caminhando na Chuva e o seu autor era Charles Kiefer.
Por estas coincidências da vida, eu que sou gaúcho de Porto Alegre descobri que o escritor que me fez gostar de ler morava em... Porto Alegre. Fiz o impensado.
Como vivíamos em uma época de maior inocência, liguei para a editora e pedi o telefone e endereço do Sr. Kiefer. E eles me deram. Nem mesmo agendei uma visita e simplesmente fui aparecendo em sua rua, seu prédio, apertando o interfone e torcendo para ter alguém em casa. E tinha.
E eu que era um guri de 16 anos entrei no apartamento e sentei-me ao lado de Charles Kiefer. Sem saber o que dizer, sem saber o que perguntar, sem sequer saber o que estava fazendo lá. Simplesmente fui ao encontro de um ídolo, meu primeiro ídolo.
Na sala daquele apartamento estava um homem que escrevia contos, ganhador de três prêmios Jabuti, Prêmio Monterio Lobato, Prêmio Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Prêmio Afonso Arinos... e eu!
Não vou mentir ao tentar lembrar o que eu lhe disse ou o que ele me disse em detalhes. Realmente não sei. Mas guardei três coisas na memória como fotografia revelada.
A primeira, meu ídolo nada mais era do que uma pessoa, um ser humano palpável e real. Um homem vivendo sua vida dentro de seu apartamento abarrotado de livros e uma máquina de escrever em cima da mesa perto da janela. Um homem cordial que tratou-me muito bem, mesmo sem motivos ou hora marcada.
A segunda, ao olhar a máquina de escrever e imaginar que se eu tivesse uma, escreveria muitos contos e seria tão conhecido quanto o homem na minha frente. Então ao comentar alguma coisa sobre o fato ouvi dele - não nestas exatas palavras mas na forma como guardei em minhas lembranças - que não é uma máquina de escrever que faz um bom texto. É uma mistura de várias coisas, muita prática, um pouco de sentimento, um pouco de instinto e várias idéias destrancadas de nossa mente.
E finalmente a terceira, eu não tive a maturidade necessária para agradecer como deveria. Fui embora e nunca mais voltei, segui seus conselhos de praticar, mas não pratiquei sem parar.
Os anos passaram e eu esqueci o meu ídolo.
E hoje quando volto vagarosamente a escrever, lembro novamente deste pequeno pedaço de minha vida, este fragmento de aprendizagem que ficou guardado.
Então aproveito este espaço para agradecer ao meu primeiro ídolo, aquele que me mostrou que podemos ser pessoas normais e ainda assim seremos ídolos daqueles que ensinamos.
Obrigado Charles Kiefer.
By Alex OldBoy |
2:51 AM
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